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Delegação do Brasil e Edições da Unesco lançam antologia bilíngue da poesia romântica brasileira
Por ocasião do XXII Salão do Livro de Paris, aberto no dia 22 de março de 2002, foi lançada a obra "Anthologie de la Poésie Romantique Brésilienne", editada pela UNESCO em parceria com a Editora Eulina Carvalho.
O livro é resultado de projeto editorial apresentado, em 1998, pela Delegação do Brasil ao então Diretor da Coleção UNESCO de Obras Representativas da literatura mundial", o escritor uruguaio Fernando Ainsa. O projeto, que se inseria no espírito daquela coleção, foi parcialmente financiado pelo Ministério das relações Exteriores brasileiro e teve por finalidade apresentar a leitores francófonos uma amostra dos poemas mais representativos do romantismo brasileiro. Constam da antologia poemas de Gonçalves Dias, Álvares de Azevedo, Casimiro de Abreu, Fagundes Varela e Castro Alves, muitos inéditos em língua francesa como é o caso de "I-Juca-Pirama", "Marabá" e "Canção do Tamoio", de Gonçalves Dias. O impossível desafio da tradução - segundo as palavras do poeta e crítico Alexei Bueno, autor do prefácio da presente Antologia e organizador de antologia homóloga ("Grandes Poemas do Romantismo Brasileiro", Nova Fronteira, 1995) - , coube a três especialistas franceses, Cécile Tricoire, Adrienne de Azevedo Macedo e Didier Lamaison, com a colaboração de especialistas em literatura brasileira, Consuelo Albergaria e Regina Machado. Didier Lamaison escreveu igualmente ensaio introdutório sobre o assunto.
A Antologia estará no stand do Brasil no próximo salão do livro de Genebra e será objeto de lançamento organizado pela Embaixada do Brasil em Marrocos. Em ambos os eventos estão previstos leitura de poemas em português e francês.
Leia, a seguir, breve amostra de poemas e traduções.
Goncalves Dias
Chanson de l'exil (1)
Traduction de Regina Helena Machado
avec la collaboration d'Isabelle Garma-Berman |
Connais-tu le pays où fleurissent les citronniers?
Là, dans le sombre feuillage, flamboie l'or des oranges,(…)
Le connais-tu bien? - C'est là, c'est là
Que je voudrais (…) aller.
| Kennst du das Land, wo die Citronen blühn,
Im dunkeln Laub die Gold-Orangen glühn,
Kennst du es wohl ? - Dahin, dahin !
Möcht' ich ... ziehen.
GOETHE
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Mon pays a des palmiers,
Où chante le sabiá (2)
Les oiseaux qui gazouillent ici,
Ne gazouillent pas comme là-bas.
Notre ciel a plus d'étoiles,
Nos vallées ont plus de fleurs,
Nos bois ont plus de vie,
Notre vie plus d'amours.
En rêvassant, seul la nuit,
Je trouve plus de plaisir là-bas;
Mon pays a des palmiers,
Où chante le sabiá
Mon pays a des attraits
Tels que je n'en trouve pas ici;
En rêvassant - seul, la nuit -
Je trouve plus de plaisir là-bas;
Mon pays a des palmiers,
Où chante le sabiá.
Que Dieu ne me permette pas de mourir,
Sans que je retourne là-bas;
Sans que je jouisse des attraits
Que je ne trouve pas ici;
Sans que je voie encore une fois les palmiers,
Où chante le sabiá. |
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.
Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores.
Em cismar, sozinho à noite,
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
Minha terra tem primores,
Que tais não encontro eu cá;
Em cismar - sozinho, à noite -
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.
Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá;
Sem que eu desfrute os primores
Que eu não encontro por cá;
Sem qu'inda avista as palmeiras
Onde canta o Sabiá.
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| Casimiro de Abreu
Mes huit ans
Traduction de Regina Helena Machado
avec la collaboration d'Isabelle Garma-Berman
Oh ! souvenirs ! printemps ! aurores !
V. Hugo
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Oh ! que j'ai des regrets
De l'aurore de ma vie,
De mon enfance chérie,
Que les années ne ramènent plus !
Que d'amours, que de rêves, que des fleurs,
Dans ces doux après-midis,
A l'ombre des bananiers,
Au dessous des orangers !
Comme sont beaux les jours
Au lever de l'existence !
- L'âme respire l'innocence
Comme la fleur des parfums;
La mer est - un lac serein,
Le ciel - un manteau d'azur,
Le monde - un rêve doré,
La vie - un hymne d'amour !
Que d'aurores, que de soleil, que de vie,
Que de nuits de mélodie
Dans cette douce allégresse,
Dans ce naïf plaisir !
Le ciel brodé d'étoiles,
La terre pleine d'arômes,
Les vagues embrassant le sable
Et la lune embrassant la mer !
Oh ! jours de mon enfance !
Oh ! mon ciel de printemps !
Qu'elle était douce la vie
Dans cette matinée rieuse !
Au lieu des chagrins du présent
J'avais, au milieu de ces délices,
Les caresses de ma mère
Et les baisers de ma soeur !
Libre enfant des montagnes,
J'allais très satisfait,
La chemise ouverte à la poitrine,
- Les pieds nus, les bras nus -
Courant dans les prairies
Autour des chutes d'eau,
Après les ailes légères
Des papillons bleus !
En ces temps de fortune
J'allais cueillir des pitangues (*),
Je grimpais pour prendre des mangues,
Je jouais au bord de la mer ;
Je priais des Ave-Maria,
Je trouvais le ciel toujours beau,
Je m'endormais en souriant
Et me réveillais en chantant !
Oh! que j'ai de regrets
De l'aurore de ma vie,
De mon enfance chérie
Que les années ne ramènent plus !
- Que d'amour, que de rêves, que de fleurs,
Dans ces doux après-midis
A l'ombre des bananiers,
Au dessous des orangers !
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Oh ! que saudades que eu tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais !
Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
À sombra das bananeiras,
Debaixo dos laranjais !
Como são belos os dias
Do despontar da existência !
- Respira a alma inocência
Como perfumes a flor;
O mar é - lago sereno,
O céu - um manto azulado,
O mundo - um sonho dourado,
A vida - um hino d'amor !
Que auroras, que sol, que vida,
Que noites de melodia
Naquela doce alegria,
Naquele ingênuo folgar !
O céu bordado d'estrelas,
A terra de aromas cheia,
As ondas beijando a areia
E a lua beijando o mar !
Oh ! dias de minha infância !
Oh ! meu céu de primavera !
Que doce a vida não era
Nessa risonha manhã !
Em vez de mágoas de agora,
Eu tinha nessas delícias
De minha mãe as carícias
E beijos de minha irmã !
Livre filho das montanhas,
Eu ia bem satisfeito,
De camisa aberta ao peito,
- Pés descalços, braços nus -
Correndo pelas campinas
À roda das cachoeiras,
Atrás das asas ligeiras
Das borboletas azuis !
Naqueles tempos ditosos
Ia colher as pitangas,
Trepava a tirar as mangas,
Brincava à beira do mar;
Rezava às Ave-Marias,
Achava o céu sempre lindo,
Adormecia sorrindo,
E despertava a cantar !
Oh ! que saudades que eu tenho
Da aurora da minha vida
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais !
- Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
À sombra das bananeiras,
Debaixo dos laranjais !
Lisbonne - 1857 |
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(1) Coimbra, juillet 1843. Gonçalves Dias écrit dans une langue ancienne parsemée de mots d'origine tupi. Je les ai conservés dans la traduction en ajoutant des notes explicatives. Le poète a écrit un Dictionnaire de la langue tupi, publié à Leipzig en 1858.
(2) Sabiá : les dictionnaires donnent soit, tout simplement, "oiseau du Brésil", soit "griveau" (Larousse de poche). Il s'agit d'un petit oiseau au plumage vert-olive ou grisâtre, parfois roux, qui a un très beau chant. Je garde ici l'ortographe brésilienne du mot d'origine tupi, "haabi'á".
(*) Fruit du pitanguier : c'est une baie rouge au goût aigre-doux, très parfumée et savoureuse.
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