A UNESCO no Fórum Social Mundial 2002

Após os protestos de Seattle, Praga, Nice, Gênova e, mais particularmente, o Primeiro Fórum Social Mundial em janeiro de 2001, um grande número de pessoas estão sendo esperadas em Porto Alegre, de 31 de janeiro a 5 fevereiro de 2002, para o segundo Fórum Social Mundial (FSM II). Com a grande diferença de que, em Porto Alegre, em vez de protestos ou passeatas, debater-se-ão possíveis alternativas para um mundo mais justo e socialmente sustentável.

Ao longo dessa estudiosa e engajada mobilização, os debates desenvolver-se-ão em torno de quatro eixos temáticos: produção de riqueza, acesso à riqueza, afirmação da sociedade civil e dos espaços públicos, e poder político e ética. Entre os objetivos do FSM II, salientamos a reflexão sobre a melhor maneira de promover valores de justiça, de solidariedade e de participação democrática e, a partir de análises e diagnósticos, empreender a formulação de propostas e estratégias distintas da orientação "neoliberal" da globalização e do pensamento único que a acompanha. Ainda que portador de formas de integração, o processo da globalização gera também formas de exclusão; a globalização promove novas oportunidades de enriquecimento para setores e grupos significativos da sociedade, porém marginaliza numerosos atores políticos e sociais.

Enquanto laboratório de idéias e organização encarregada da cooperação intelectual e científica internacional, a UNESCO cumpre papel ativo no movimento mundial pelo desenvolvimento social graças a sua contribuição para o avanço do conhecimento e para a elaboração de princípios e políticas. Por conseguinte, a participação da UNESCO no FSM, uma vez mais em 2002, é natural e esperada.

Por meio de uma colaboração com seus parceiros da sociedade civil, a UNESCO propõe três oficinas que tratarão os desafios contemporâneos associados às áreas de atuação da Organização – Educação, Ciências, Cultura e Comunicação – em uma perspectiva que visa a repensar os vínculos entre o saber científico e a ação pública. A UNESCO terá seu próprio estande no local do FSM II, estande este que servirá como centro de informação sobre as atividades da Organização, bem como espaço informal de intercâmbio e reflexão.

De fato, devemos perguntar-nos: quais são as alternativas possíveis diante de uma globalização exclusivamente mercantil e não solidária? Será possível desenvolver processos de globalização alicerçados na justiça social?

É da maior importância para a UNESCO participar do Fórum Social Mundial. Tanto a UNESCO quanto o FSM compartilham da convicção de que é necessário consolidar a construção coletiva e alternativa rumo a uma nova ordem social. Apoiada em ações estratégicas realistas, esta utopia comum tornará realidade a aspiração humana por um mundo mais justo, no qual globalização e direitos humanos sejam compatíveis. Por ocasião do primeiro Fórum Social Mundial, a UNESCO organizou um debate em torno da governança democrática, temática estratégica que se abriu a discussão política e prospectiva.

No cerne desse debate, as contribuições dos participantes africanos, asiáticos, europeus e latino-americanos podem articular-se em torno de quatro pontos básicos:

  • O papel do Estado e dos movimentos sociais na consolidação da capacidade das democracias para contra-arrestar e gerir a globalização para o benefício de seus cidadãos;
  • As instâncias de regulação internacional existentes e as a serem criadas;
  • Os meios para instaurar uma governança do sistema mundial apoiada em princípios democráticos;
  • Os papéis reservados às Nações Unidas e aos atores não estatais, em particular as ONG, dentro dessa governança democrática mundial.

Das diversas publicações dedicadas a esse debate, tirou-se a conclusão da necessidade do aprofundamento das análises sobre a democracia enquanto complexo sistema de gestão dos conflitos que privilegia o político sobre o econômico. Donde a pergunta generativa: como apreender a democracia à luz da crise da representação política, da emergência de novas formas de cidadania?

"Governança democrática": será esse o tema estratégico de ordem geral, que, em 2002, norteará o debate em torno de questões mais focalizadas, geográfica e historicamente situadas e partindo de estudos de caso. Para o FSM II, o programa proposto pela UNESCO abarca três temas, a serem discutidos em três seminários:

Os seminários destinam-se a promover um debate aberto, mais especialmente, aos eixos do FSM, entre os quais, em especial:

  • Acesso aos bens e sustentabilidade;
  • Dinâmicas, movimentos sociais e governança;
  • Princípios, valores e identidades culturais.
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Imagen: © UNESCO, G. Solinís