23.04.2013 - UNESCO Office in Brasilia

Artigo "Brasília, passado, presente e futuro", Lucien Muñoz

Artigo do Representante da UNESCO no Brasil, Lucien Muñoz, publicado pelo jornal Correio Braziliense no dia 21 de abril de 2013, aniversário de Brasília.

Brasília completa hoje 53 anos como uma das cidades mais admiradas do mundo, por seu valor excepcional universal, motivo pelo qual recebeu da UNESCO o título de Patrimônio Cultural da Humanidade. O reconhecimento à genialidade, à ousadia e à inovação do projeto urbanístico do Plano Piloto, de autoria de Lúcio Costa, veio cedo, em 1987, quando a cidade tinha apenas 27 anos. Na época, o mundo se surpreendeu com a inscrição do primeiro monumento moderno na Lista do Patrimônio Mundial.

A entrada de Brasília nessa lista privilegiada representou um enorme exercício de reflexão e uma grande responsabilidade para a UNESCO, por ser uma cidade muito nova, em processo de formação e com suas atividades urbanas em pleno desenvolvimento. Havia ainda, naquela ocasião, a excepcionalidade da inexistência de proteção em nível federal. O tombamento, realizado pelo IPHAN, aconteceu somente em 1990. Até então, a cidade contava apenas com a proteção no âmbito do Distrito Federal.

A despeito dos desafios e do ineditismo da candidatura para a própria UNESCO, que até então priorizava a apreciação de cidades históricas, a inscrição de Brasília foi aprovada pelo Comitê do Patrimônio Mundial, em 7 de dezembro de 1987, como notável testemunho da  concepção urbanística do século XX e por representar uma obra-prima do gênio criativo humano.

A história de Brasília – cuja origem remonta ao século XIX, quando surgiu a ideia da interiorização da capital do país – é marcada por desafios e por preocupações desde os seus primórdios. Logo após a inauguração da capital, Juscelino Kubitschek já manifestava sua inquietação diante da necessidade de preservação do seu projeto original e, em 1985, o governador José Aparecido de Oliveira liderou a campanha vitoriosa da candidatura de Brasília.

De 1987 a 2013, a preocupação dos brasilienses, dos defensores da preservação do plano original e da própria UNESCO se intensificou fortemente. Atualmente, o Plano Piloto sofre impactos negativos provocados pelo desenvolvimento urbano acelerado, e os gestores públicos enfrentam dificuldades na busca de uma legislação capaz de compatibilizar crescimento e preservação.
 
Como conservar as características do Plano Piloto, que deram à cidade o título internacional? Como preservar a qualidade de vida, os grandes espaços livres e as escalas desse lugar tão diferente e único aos olhos do mundo? Como aumentar o sentimento de pertencimento da população, garantindo a diversidade cultural, a mistura de saberes, culturas e expressões artísticas, trazidas por pessoas de fora que foram tão generosamente acolhidas? Como será a capital daqui a 20, 50, 100 anos, e como viverão as gerações futuras?

Responder a essas perguntas com ações concretas é uma questão urgente para a população de Brasília, que deve continuar a ter motivos para se orgulhar da grandiosidade da cidade e do valor do título. É, sobretudo, um desafio para o Governo do Distrito Federal, bem como para o IPHAN e para a UNESCO, parceiros na defesa e na promoção do patrimônio histórico nacional e mundial.

A UNESCO não tem poupado esforços para responder às demandas da sociedade e dos governos, mobilizando a atenção da comunidade internacional por meio de várias missões de monitoramento do estado de conservação de Brasília. Desde 2001, essas missões têm recomendado medidas de conservação do patrimônio e têm sido enfáticas na solicitação de providências para um melhor planejamento urbano e, principalmente, para a criação de instrumentos para uma gestão adequada do Conjunto Urbanístico de Brasília, coordenando as autoridades envolvidas.

A preservação do patrimônio, em todas as partes do mundo, é vista como uma oportunidade de desenvolvimento, e não como “engessamento” das cidades, como alguns críticos levam a crer. Ela serve como parâmetro, dentro do qual deve ocorrer o desenvolvimento urbano – e também humano – ordenado. Os Sítios do Patrimônio Mundial são lugares excepcionais, valorizados por turistas e por investidores, que atraem novos empregos, progresso econômico e social, mas desde que existam políticas públicas que reconheçam a sua relevância.

Infelizmente o Brasil ainda não despertou para a condição especial e para o potencial de desenvolvimento local dos seus 19 Sítios do Patrimônio Mundial. A Copa das Confederações e a Copa do Mundo de Futebol, que atrairão a atenção do mundo todo para o país, representam uma boa oportunidade para mudar essa cultura.

Assim, Brasília tem todas as condições de tirar proveito do título de Patrimônio Cultural da Humanidade, aliando cultura e desenvolvimento. Ainda há potencial para crescer, para que todos os brasilienses e os que aqui plantaram seus sonhos se encontrem, e se reencontrem com sua cidade e com a diversidade de suas expressões culturais, tendo como cenário suas belas paisagens e o seu lindo céu.


*Lucien Muñoz é economista e Representante da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) no Brasil.






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