13.09.2012 - UNESCO Office in Brasilia

Pesquisa inédita sobre favelas cariocas é lançada em seminário internacional no Rio de Janeiro

CC BY-NC-ND 2.0 / Hervé Photos - Cantagalo, RJ. Uma das favelas que fazem parte do estudo "Sociabilidades Subterrâneas".

Assunto: Seminário Internacional Sociabilidades Subterrâneas: Identidade, cultura e resistência em comunidades marginalizadas

Data: 13/09/2012, de 10h às 18h.

Local: Auditório do Espaço Criança Esperança – Cantagalo – Rio de Janeiro, RJ

Como as comunidades de favelas do Rio de Janeiro estão encontrando formas alternativas de integração, socialização e regeneração social capazes de romper as barreiras da exclusão e da marginalização? Desvendar essas formas de sociabilidades foi o objetivo de pesquisa lançada em 13/09, no Rio, durante o Seminário Internacional Sociabilidades Subterrâneas: Identidade, cultura e resistência em comunidades marginalizadas. No dia 2 de novembro, haverá o lançamento do estudo em Londres.

A pesquisa envolveu interlocutores em universidades, movimentos sociais, governo e iniciativa privada e foi desenvolvida pela London School of Economics and Political Science (LSE), com apoio da Representação no Brasil da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura – UNESCO, em parceria com AfroReggae e a Central Única das Favelas – CUFA. O estudo e os seminários foram viabilizados pelo Itaú Cultural e pela Fundação Itaú Social.

O lançamento contou com a presença da coordenadora do estudo, a pesquisadora chefe e diretora do Mestrado em Psicologia Social da London School of Economics and Political Science (LSE), Sandra Jovchelovitch, de especialistas nacionais e internacionais em segurança pública e direitos humanos, além de lideranças de ONGs e autoridades do governo federal e do estado Rio de Janeiro. Às 15h45, o secretário-executivo da Secretaria-Geral da Presidência da República, Rogério Sottili, mediou a mesa “As Rotas das Sociabilidades Subterrâneas”.

O projeto compreendeu uma investigação do mundo da vida da favela, por meio de entrevistas com 204 moradores das comunidades do Cantagalo, Cidade de Deus, Madureira e Vigário Geral. Também envolveu um estudo sobre as organizações AfroReggae e CUFA, com a análise de 130 projetos de desenvolvimento social e entrevistas com suas lideranças, além de uma avaliação com especialistas, observadores e parceiros das duas entidades no Rio de Janeiro, tendo como especial ênfase a polícia.

O estudo traz luz às chamadas sociabilidades subterrâneas das favelas, as formas de vida social que fazem parte do cotidiano da sociedade brasileira, mas permanecem invisíveis devido a barreiras geográficas, econômicas, simbólicas, comportamentais e culturais. A pesquisa descobriu que essas sociabilidades subterrâneas são caracterizadas por um quadro institucional complexo, marcado pela família, pelo narcotráfico, pela ausência do Estado, com a polícia sendo sua única face e relacionada ao tráfico de drogas, as igrejas e as ONGs, como o AfroReggae e a CUFA.

Alguns resultados da pesquisa

  • A partir dos anos 1990 novos atores sociais – jovens, negros, moradores em favelas – começam a se fazer presentes na esfera pública com respostas organizadas à pobreza, violência e segregação, desafiando modelos tradicionais de organizações não governamentais e reposicionando a favela na agenda da sociedade brasileira.
  • A família é central para os moradores da favela apesar de ser uma realidade instável em suas vidas. Quase 70% de jovens entre 12 e 17 anos relatam o pai ausente, mais de 25% relatam a mãe ausente e quase 20% relatam pai e mãe ausentes. Avós e mães têm um papel central na estabilização de trajetórias de vida.
  • A centralidade do tráfico de drogas é marca fundamental: durante anos o tráfico foi provedor, legislador e organizador da vida cotidiana na favela, oferecendo um sistema paralelo de códigos comportamentais e uma rota de sobrevivência econômica e profissionalização e definindo o direito à cidade.
  • A polícia é a principal face do estado, vista pelos moradores da favela como força persecutória e agressiva, uma instituição que não diferencia o residente do traficante de drogas e do criminoso. 
  • A segurança é uma questão central no mundo da vida da favela e nas vias de socialização. Existem complexas relações entre os moradores, a polícia e as facções do tráfico.
  • Os moradores da favela vivem em meio a duas leis de segurança: a do tráfico de drogas e a da polícia. Para sobreviver, eles aprendem a reconhecê-las e as adotam dependendo das diferentes situações da vida cotidiana.
  • Os moradores temem mais a vida fora da favela do que dentro dela. O lado de fora é desconhecido, a discriminação e o preconceito estão muito presentes e as regras da cidade são vistas como estranhas e duvidosas.
  • O morador da favela evita cruzar a fronteira morro/asfalto porque a divisão da cidade é vivida pelo indivíduo como fonte de estigma e discriminação.
  • Os residentes da favela falam pouco de direito à segurança. Relatam abusos frequentes da polícia e sabem que muitas vezes são vistos como criminosos.
  • Há pouca referência ao conceito de cidadania e ao fato de que é uma obrigação do Estado oferecer ambientes seguros para os cidadãos.
  • As UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora) representam uma mudança nas relações entre os moradores de favelas e a polícia. Há um novo diálogo entre a polícia e a comunidade, gerando uma nova sensação de segurança.
  • 93% dos participantes gostam de morar no Rio de Janeiro, mas o vínculo afetivo que liga a favela e a cidade é marcado por representações ambivalentes que veem o Rio como cidade maravilhosa/cidade violenta.
  • Moradores de favelas lidam com a cidade partida desenvolvendo dois conjuntos de representações: a cidade é percebida como um lugar regulado por leis ambíguas onde se é visto como um ‘individuo’ desconhecido; a favela, pelo contrário, tem regras claras onde se é visto como pessoa conhecida, com uma rede de apoio formada pela família e amigos.
  • O residente da favela habita um mundo à parte, com instituições frágeis e a presença de um empreendimento ilegal (o trafico de drogas) que até recentemente oferecia uma ordem pública paralela ao Estado.
  • A maioria esmagadora da população da favela trabalha, luta para manter-se dentro da legalidade e demonstra determinação para escapar ao apelo do narcotráfico.
  • Resultados mostram que a resistência a atividades criminosas é possível e disseminada no mundo da favela. Essa resistência se apoia sobre andaimes psicossociais que ajudam indivíduos a construir uma identidade positiva e enfrentar as dificuldades do contexto favela, construindo alternativas para suas próprias vidas.

Sobre o trabalho do Afroreggae e da CUFA

Afroreggae e Cufa são organizações que oferecem andaimes psicossociais: agem como família, Estado, setor privado, dando apoio, desenvolvendo competências, organizando empregos e gerando um novo campo de representações sociais sobre a favela e sobre a cidade.

  • Elas “competem” diretamente com o tráfico de drogas oferecendo alternativas. Suas ações e estruturas de apoio interpessoal protegem contra a marginalização e são condições essenciais para a inserção social.
  • Constituem aspectos fundamentais na trajetória das sociabilidades subterrâneas. Estão marcadas nas vozes dos moradores, na maneira como relatam sua vida pessoal, sua experiência na comunidade e, sobretudo, nas relações entre a favela e a cidade.
  • Misturam funções de movimentos sociais, produtores culturais, empresários, artistas e trabalhadores sociais. São produto da favela e estão profundamente enraizadas em seu mundo.
  • Utilizam-se das artes, da cultura, da imaginação e da criatividade para subverter estereótipos, conectar espaços urbanos, tornando visível e atraente a cultura da favela para a cidade, o país e o mundo.
  • Constroem parcerias inusitadas com movimentos sociais, mídia, Estado e o setor privado, criando novas leituras sobre comunidades populares e colocando a favela na agenda da cidade.
  • Agem como mediadores de conflitos. Garantem o acesso à favela e comunicam-se tanto com o narcotráfico quanto com a polícia. Regeneram o ambiente, construindo espaços de sociabilidade, tais como o Centro Cultural Waly Salomão, em Vigário Geral, e o Viaduto em Madureira.

Conclusões e recomendações

Segundo a coordenadora do estudo, Sandra Jovchelovitch, uma importante conclusão da pesquisa é que o trabalho desenvolvido pelo AfroReggae e pela CUFA constitui-se em uma tecnologia social inovadora que pode ser adotada em outras partes do mundo.“A eficácia dessas organizações deriva da sabedoria, cultura e identidade das comunidades em que estão inseridos e representam. Seus projetos cumprem funções múltiplas e oferecem lições que devem ser escutadas. O capital social do Brasil e o modelo de desenvolvimento social que encontramos no Rio podem ser transferidos e contribuir enormemente para melhorar as condições de vida de populações excluídas ao redor do mundo”, afirma.

Entre as conclusões e recomendações do estudo estão: a necessidade de investimentos na educação de meninas, na criação de programas de apoio a mulheres e no desenvolvimento de modelos masculinos de identificação, fortalecendo a posição do pai ou outros cuidadores homens na rota da socialização. O estudo sugere ainda o aumento do alcance e da qualidade dos serviços nas favelas, em particular a educação, e que o desenho e a implementação de políticas sociais sejam feitos junto com as organizações da favela. Recomenda-se também que o setor privado entenda a economia da favela e a ética de desenvolver negócios em territórios de exclusão social.

Mais informações sobre a pesquisa 

Programação do evento

Release de imprensa da London School of Economics and Political Science (LSE) (pdf)

Contatos para a imprensa:

UNESCO no Brasil – Assessoria de Comunicação
Isabel de Paula, (61)2106-3538/98468061, isabel.paula(at)unesco.org.br
gcomunicacao(at)unesco.org

Itaú Cultural
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Larissa Correa, (11) 2168-1950/98139-9786 Larissa.correa(at)mailer.com.br
Cristina R. Durán (11) 5056-9800. Cristina.duran(at)conteudonet.com

Fundação Itaú Social
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