06.03.2019 - UNESCO Office in Brasilia

Participantes da Conferência Mundial da UNESCO sobre Inteligência Artificial pedem uma governança de IA com base em direitos

Um consenso claro surgiu da necessidade de garantir uma governança de inteligência artificial (IA) centrada no ser humano durante a conferência UNESCO’s Principles for AI: Towards a Humanistic Approach? Global Conference (Princípios da UNESCO para IA: Rumo a uma Abordagem Humanística? Conferência Mundial), que aconteceu em 4 de março na Sede da Organização.

Em seu discurso de abertura da Conferência, a diretora-geral da UNESCO, Audrey Azoulay, disse que as questões levantadas pela inteligência artificial não são tecnológicas. Elas dizem respeito à nossa própria humanidade ao levantar as questões científicas, políticas, filosóficas e éticas”.

Audrey Azoulay também declarou que “o momento é mais do que exato para definir os princípios éticos que devem servir de base e marco de ação para esse debate; para garantir que a IA sirva às escolhas coletivas fundamentadas nos valores humanistas”.

Ao se referir ao trabalho da UNESCO na área de IA, a diretora-geral anunciou que “nós agora seremos capazes de trabalhar com base no primeiro relatório da Comissão Mundial de Ética do Conhecimento Científico e da Tecnologia, COMEST. Esse novo relatório dedicado à inteligência artificial certamente fornecerá um grande apoio científico para as reflexões e iniciativas dos Estados-membros”.*

Angel Gurría, secretário-geral da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) falou sobre a necessidade de cooperação para garantir que a IA se torne um condutor do crescimento inclusivo e sustentável: “Precisamos acertar, porque ao mesmo tempo em que a IA está criando otimismo, ela também está criando ansiedades e preocupações éticas”.

Gurría também falou sobre a necessidade de trabalhar com a UNESCO em um esforço conjunto para “tornar a IA menos artificial e mais inteligente”.
Ao longo do dia, acadêmicos, representantes de organizações intergovernamentais e do setor privado, ministros, membros da comunidade técnica, a mídia e a sociedade civil clamaram pelo desenvolvimento de princípios éticos para administrar a IA com base na transparência e na responsabilização. Eles enfatizaram a necessidade de dados abertos que respeitem a privacidade. Destacaram também a importância de dados que vão além das informações coletadas de maneira tradicional pelos serviços públicos, os quais fundamentam as previsões e as decisões que já permitem que a IA contribua, por exemplo, com o tratamento de doenças, a gestão de recursos hídricos e o planejamento agrícola.

Contudo, os dados não são neutros, e vários participantes apontaram que fazer com que a tecnologia sirva à humanidade requer dados que sejam verdadeiramente representativos e inclusivos, o que representa um problema, considerando que metade da população mundial permanece desconectada da internet.

Cédric Villani, vencedor da Medalha de Matemática (Fields Medal in Mathematics) e membro do parlamento francês, falou sobre a necessidade de preservar a soberania humana em face dos algoritmos e a soberania geopolítica em face da atual concorrência para desenvolver a IA. Ao falar sobre o desafio de se desenvolver a IA com vista aos objetivos humanos, Villani advertiu que “o perigo somos nós mesmos, se não conseguirmos enfrentar o desafio”.

Bunmi Banjo, diretor administrativo da Kuvora Inc., alertou para não cairmos na “armadilha da eficiência” sem considerar o que é justo, uma vez que as decisões tomadas hoje afetarão a humanidade nas próximas décadas.

Porém, os palestrantes apontaram a lentidão dos instrumentos internacionais de normalização, que, historicamente, têm mais seguido as inovações tecnológicas ao invés de antecipá-las, o que agora é necessário ao se tratar da IA.

Ao mesmo tempo em que todos os palestrantes destacaram a necessidade de se desenvolver princípios para a IA, Fabrizio Hochschild Drummond, secretário-geral adjunto para a Coordenação Estratégica do Escritório Executivo do secretário-geral das Nações Unidas, alertou que “as atuais preferências pelos acordos internacionais não vinculativos, parte da mudança da cooperação para a competição, torna os tratados não vinculativos muito mais atraentes, mas nem todos são confiáveis. […] Se deixarmos a mão invisível do mercado operar livremente, teremos aplicativos úteis, mas a nossa privacidade será corroída e as desigualdades aumentarão, contribuindo para a polarização de nossas sociedades”.

A Conferência foi parte de uma série de eventos da UNESCO sobre IA, seguindo o debate sobre ética das novas tecnologias e da inteligência artificial Futuras Tecnologias: Esperança ou MFuturas Tecnologias: Esperança ou Medo? (22 de janeiro) e o Fórum sobre Inteligência Artificial na África (12 e 13 de dezembro de 2018). A UNESCO está planejando um grande evento sobre inteligência artificial e educação para estudar as tecnologias emergentes de IA e as práticas inovadoras de uso da IA na educação, em Beijing, em parceria com o Governo da República Popular da China. (16-18 de maio).

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Contato para a imprensa: Roni Amelan, Press Service – r.amelan@unesco.org ; +33 (0) 1 45 68 16 50

* O Grupo de Trabalho Ampliado da COMEST sobre Ética e IA finalizou um estudo preliminar sobre ética em IA, que recomenda um instrumento de normalização nessa área. O estudo será apresentado ao Conselho Executivo da UNESCO em abril, como uma introdução ao diálogo com os Estados-membros, cujo propósito é avançar rumo ao desenvolvimento de um novo instrumento internacional normativo.




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