29.08.2013 - UNESCO Office in Brasilia

Projetos de fortalecimento da educação, combate ao preconceito e inclusão de pessoas com deficiência

Organizações contribuem para o fortalecimento da educação, combate ao preconceito e a inclusão de pessoas com deficiência no Brasil por meio do Criança Esperança. União da sociedade é essencial, ressaltam especialistas. Conheça algumas instituições com projetos educativos apoiados pelo Criança Esperança.

Os projetos que recebem apoio do Criança Esperança em todo Brasil são selecionados anualmente pela Unesco. Para isso, a instituição divide os beneficiados em oito áreas de atuação. Uma delas é o “Fortalecimento e apoio à educação formal”, que visa selecionar instituições preocupadas em valorizar, ampliar e aprofundar o debate sobre a educação. Debate este cada vez mais relevante na sociedade. Isso porque, a partir de 2016, todas as crianças com mais de 4 anos de idade deverão estar matriculadas na escola, segundo a Lei 12.976, sancionada pela presidente Dilma em abril deste ano. A lei também torna obrigatória a oferta gratuita de Educação Básica pelos governos a partir desta mesma idade.

"A educação avança no que diz respeito à inclusão na escola, mas ainda é preciso investir no ensino de qualidade, explica Priscila Cruz, diretora executiva do movimento Todos Pela Educação.

“Melhorar a educação é uma tarefa enorme. Durante séculos não demos a devida atenção a ela, por isso, todo o mundo tem que se envolver agora. Avançamos no Ensino Fundamental, mas o gargalo se intensifica no Ensino Médio. A educação é um dever do Estado e da família. Está na Constituição. As organizações não governamentais também cumprem um papel importante no apoio e fortalecimento da educação”, ressalta Priscila.

O Espaço Cultural Nossa Biblioteca, em Belém do Pará, é um exemplo entre as instituições não governamentais que reforçam a educação de crianças há 35 anos através de trabalho de incentivo à cultura. O projeto “Espaço Literário: pelo fomento e democratização da leitura infanto-juvenil no Bairro do Guamá" ganhou apoio do Criança Esperança em 2013 e, com isso, conseguiu ampliar sua atuação. Eles adquiriram material pedagógico, equipamentos, contrataram educadores para as oficinas e profissionais para o projeto.

Para Denis Mizne, diretor executivo da Fundação Lemann, organização sem fins lucrativos que visa contribuir para melhorar a qualidade do aprendizado, o desafio das organizações é fazer a diferença. “É necessário estabelecer parcerias para agregar valor. Algumas instituições realizam cursos regulares e outras oferecem atividades complementares no contraturno das escolas. Independentemente do tipo de trabalho realizado, é necessário que ele esteja integrado com o projeto pedagógico da escola, não vale só ser uma atividade para passar o tempo”, ressalta.

A Associação Casa das Artes de Educação e Cultura. É outro exemplo. A instituição trabalha há 12 anos com projetos voltados para comunidades populares do Rio de Janeiro. Em 2007, a instituição criou uma metodologia chamada Mandala dos Saberes, uma tecnologia social que vem colaborando para a ampliação do diálogo entre escolas e comunidades, valorizando a integração entre os saberes locais e os saberes acadêmicos. A instituição recebeu este ano apoio do Criança Esperança para o projeto “Educação para as ciências e meio ambiente –– desenvolvimento sustentável e tecnologias populares”. Com a ajuda, foi possível adquirir material para o laboratório de ciências, material para as oficinas (kit pedagógico) e folders informativos para a Semana Nacional da Ciência e Tecnologia. Além disso, o apoio financiou o pagamento de professores e coordenadores pedagógicos.

Desde 2004 o Instituto Peró Arte e Cidadania, em Pernambuco, também contribui para o desenvolvimento de crianças e jovens realizando oficinas de música, dança, cidadania, incentivo à leitura, etc. A instituição recebeu apoio do Criança Esperança para o projeto "Histórias Andantes", implementado em espaços públicos e nas escolas municipais de Jaboatão dos Guararapes, onde são desenvolvidas atividades de mediação de leitura utilizando livros, figurinos e brinquedos.

“O apoio do Criança Esperança facilitou muito nosso trabalho. Já vemos resultados positivos no aprendizado das crianças, a capacidade de leitura delas está melhorando”, conta Erika Barbosa, assistente social que trabalha na instituição.

Projetos beneficiados pelo Criança Esperança combatem o preconceito

Outra área considerada na seleção dos projetos beneficiados pelo Criança Esperança são é “Diversidade racial e de gênero” e visa escolher instituições preocupadas em valorizar, ampliar e aprofundar o debate sobre as questões do preconceito. Debate este cada vez mais relevante na sociedade. Para Reinaldo Bulgarelli, educador e sócio–diretor da Txai Consultoria e Educação, é preciso reconhecer que o preconceito existe, compreender como ele produz prejuízos e trabalhar o tema nas escolas com a perspectiva de melhorar a qualidade das relações entre todos.

“Há um problema na relação e não um problema com o negro. Não praticar o racismo e não ser conivente com ele é essencial para a escola cumprir seu papel. É preciso identificar práticas de racismo, falar sobre isso e não aceitar de forma alguma situações racistas”, defende Reinaldo.

Existem instituições que batalham diariamente pela igualdade de raças e de gênero. É o caso, por exemplo, do ArtEducação Nego D'água, do Instituto Cultural de Arte-Educação Nego D'água, de Juazeiro, Bahia, apoiado pelo Criança Esperança. Nascido a partir de um grande movimento de arte-educação em 2001, a instituição envolve a parceria de cinco ONGs (Cria, OAF, Bagunçaço, Casa das Filarmônicas e Circo Picolino), o que levou a participação de mais de 1.000 crianças e adolescentes e a formação de mais de 30 arte-educadores. Sua proposta é contribuir para o debate em torno do povo negro, atendendo a crianças e adolescentes através de atividades de arte-educação, com oficinas de balé, dança afro, circo, capoeira, filarmônica, confecção de bonecões e teatro, e oficinas de contação de histórias, entre outras atividades.

As mulheres também sofrem com o preconceito. “A menina negra é a mais vulnerável às práticas racistas e isso se reflete depois na vida adulta, com a mulher negra, por exemplo, ficando na base da pirâmide quando se trata de remuneração”, explica Reinaldo.

Para combater a discriminação de gênero, o Criança Esperança apoia projetos em 2013 que ajudam na autoestima de mulheres e meninas. É o caso, por exemplo, do Instituto Pró-Educação e Saúde – Proeza. Fundado em 2003, o Proeza é uma organização não governamental pensada para desenvolver projetos de geração de renda, mediante a profissionalização de mulheres, bem como sua inclusão nos segmentos produtivos da economia, tendo como foco famílias residentes no Distrito Federal.

O projeto beneficiado “Reescrevendo Histórias de Vida” atende crianças e adolescentes de 6 a 14 anos com histórico de trabalho infantil, violência doméstica, abuso sexual e outras formas de vulnerabilidade socioeconômica na cidade de Recanto das Emas. São aulas no contraturno escolar de balé, jiu-jitsu, street dance, música e teatro, além de atendimento psicossocial. O projeto visa também oferecer às mães das crianças oficinas terapêuticas de bordado, que são conduzidas por uma instrutora e uma psicóloga.

Já o Grupo Mulheres em Ação, também apoiado pelo Criança Esperança, é uma organização feminista criada em 1994 com a missão de ser instrumento de luta, mobilização e organização das mulheres e suas famílias no município de Mossoró, no Rio Grande do Norte. O Grupo atende a 26 comunidades, tanto na área urbana como também nas comunidades da zona rural do município.

“Reconhecer o problema, falar sobre ele, estudá-lo e mobilizar a comunidade escolar para aprender a ver qualidade nas diferenças e a diferença como uma qualidade é uma atividade própria da escola. É um exercício como tantos outros e que deve ser cotidiano, parte da essência de ser escola e de contribuir para a construção de uma país mais inclusivo, respeitoso e justo, livre do racismo. O cuidado com os conteúdos, material didático, relacionamentos entre todos, considerando que o racismo existe e precisa ser enfrentado, deve estar no projeto político-pedagógico da escola. É triste ver adultos brancos dizerem que só muito depois da escola é que tomaram consciência do problema do racismo”, lamenta o educador.

Inclusão de pessoas com deficiência é garantia de direitos constitucionais

Construções que cumprem normas de acessibilidade, escolas que exercem a educação inclusiva com qualidade e transportes públicos projetados para garantir o ir e vir de qualquer cidadão são exemplos de medidas ideais para uma cidade que pretende atender a todos os seus habitantes, respeitando suas diferenças. Com o intuito de estimular ações ligadas ao tema, a Unesco também considera com uma área na divisão para a seleção dos projetos a serem beneficiados pelo Criança Esperança a “inclusão de pessoas com deficiência”.

No Brasil, a Constituição Federal determina que todos os cidadãos têm direito à educação, à cultura, ao lazer e ao trabalho, por exemplo. No entanto, para que todos, de fato, tenham acesso a esses direitos, é preciso que as diferenças sejam consideradas. “Pessoas com deficiência são incluídas quando as políticas também são capazes de alcançá-las”, afirma o secretário nacional de Promoção dos Direitos da Pessoa com Deficiência Antônio José Ferreira.

Em novembro de 2011, o Governo Federal lançou o Plano Nacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência Viver sem Limites. A política tem como objetivo envolver 15 ministérios na promoção de ações que desenvolvam e aprimorem o atendimento a pessoas com deficiência no país.

Muitas das iniciativas deste plano são, segundo a secretaria de Promoção dos Direitos da Pessoa com Deficiência, destinadas à inclusão social de crianças e adolescentes em medidas que vão desde a atenção à saúde do bebê até a promoção da acessibilidade e da educação inclusiva.
 
Segundo o secretário Antônio José Ferreira, o maior desafio diante de tantos projetos que estão em andamento é conquistar a consolidação destas ações. “O desafio é estabelecer no Brasil uma política pública de inclusão consolidada”, afirma.

A desinformação e o preconceito em relação às pessoas com deficiência também podem ser considerados desafios a serem vencidos na luta pela inclusão social. Alana Ribeiro é diretora da Fundação Projeto Diferente, instituição criada em 1989, em Fortaleza, que trabalha em prol do desenvolvimento psicossocial de crianças e jovens autistas e portadores de outros Transtornos Globais do Desenvolvimento. Segundo ela, a inclusão social de crianças e jovens autistas, por exemplo, é ainda mais difícil devido à falta de conhecimento sobre a doença por grande parte da população.

A Fundação recebe apoio do Criança Esperança este ano. Segundo Alana, é cada vez mais frequente a referência ao autismo na televisão, o que tem contribuído para a disseminação de informações sobre a doença. “Temos sido muito procurados por pais que não sabiam o que era o autismo e que, por estar havendo tanta divulgação, estão se sentindo mais a vontade para correr atrás de informações”, afirma. Atualmente, a atriz Bruna Linzmeyer interpreta Linda, uma jovem autista na novela Amor à Vida.

Assim como a Fundação Projeto Diferente, outras instituições apoiadas pelo Criança Esperança também são referência na promoção da inclusão social de pessoas com deficiência. O Instituto Londrinense de Instrução e Trabalho para Cegos, situado em Londrina, Paraná, contribui há 34 anos para a inclusão social de pessoas com deficiência visual. O Instituto trabalha com o objetivo de garantir independência e qualidade de vida através de uma formação integral.

Trabalhos como estes são fundamentais para quebrar preconceitos e educar a população a lidar com as diferenças. “Nos dias de hoje, ainda existem inúmeros paradigmas no que diz respeito a pessoas com deficiências. Contudo, o principal papel da sociedade é desmistificar estas crenças em torno dos sujeitos com deficiência e partir para a construção de uma sociedade capaz de atender melhor esta diversidade”, afirma Janaína Notari, vice-diretora do Centro de Integração da Criança Especial - Kinder, instituição também apoiada pelo Criança e Esperança e igualmente dedicada a promoção da inclusão de pessoas com deficiência.

A Kinder, fundada em Porto Alegre, desenvolve um trabalho de reabilitação, habilitação e educação de pessoas com deficiências múltiplas. Desde 1988, a instituição, que acredita no potencial de aprendizagem de qualquer ser humano, contribui para a construção de um país mais inclusivo. “Oferecemos para pessoas com deficiências múltiplas condições favoráveis para o desenvolvimento dos seus potenciais”, explica a vice-diretora.

Fonte: Rede Globo/Programa Criança Esperança




<- Back to: Visão Exclusiva do Conteúdo Dinâmico
Voltar ao topo da página