12.11.2013 - UNESCO Office in Brasilia

A história da África

Como a história é ensinada na África? Trinta anos após a UNESCO publicar o primeiro volume da Coleção História Geral da África, essa questão será discutida em uma conferência regional da UNESCO sobre a utilização da publicação em instituições educacionais (Acra, Gana, de 22 a 24 de outubro).

Os oito volumes da História Geral da África encontraram seu lugar nas bibliotecas e faculdades das universidades africanas, onde se tornaram uma importante referência. De acordo com um estudo da UNESCO, 61% das universidades do continente usam o trabalho, tanto na pesquisa (87,5%) como no ensino (69%).*

“Isso é bom, mas não é o suficiente”, diz Ali Mousa Iye, chefe da Seção de Memória e História da UNESCO. “Considerando que os estados da África estavam por trás dessa iniciativa, a História Geral da África deveria ser ensinada em todas as universidades”. Essa lacuna é explicada, em parte, pelo alto custo da edição impressa, por problemas com a distribuição e pelas instalações insuficientes em instituições de ensino superior, para acesso à versão online da obra.

Iniciado em 1964, a pedido dos novos estados africanos independentes, o projeto procurou questionar a visão eurocêntrica da África que dominava os livros escolares até aquele momento e também buscou escrever uma história africana livre de preconceitos herdados da era colonial. Muitos aspectos já foram abordados desde que o primeiro volume foi publicado, em 1980.

Na década de 1960, quando os países do continente se tornaram independentes, havia poucas pesquisas sobre a história da África. Em 1963, Hugh Trevor-Roper, professor de história moderna da Universidade de Oxford, comentou o desejo dos alunos de estudar a história da África Subsaariana, dizendo: “Talvez, no futuro, haverá alguma história da África para ensinar. Mas, no momento, não há nada, ou muito pouco: só existe a história da Europa na África. O resto é, em grande parte, escuridão, e a escuridão não é um assunto da história”.

Escrever uma história comum da África tem sido um processo longo e, por vezes, difícil. O trabalho começou em 1970, com o estabelecimento de um comitê científico internacional de 39 membros, dois terços deles africanos. O primeiro volume da História Geral foi lançado dez anos mais tarde, criando grande interesse nos círculos acadêmicos e intelectuais. As raízes africanas da civilização do Egito Antigo foram discutidas pelos egiptólogos. O uso de fontes orais como material nas pesquisas históricas também foi objeto de discussão calorosa, assim como questionamentos sobre o significado da divisão entre o Norte da África e a África Subsaariana.

No entanto, o trabalho prosseguiu, e oito volumes foram publicados entre 1980 e 1999. A escrita de um nono volume, que atualizará o conteúdo dos volumes anteriores e revisará a contribuição da Diáspora Africana em todo o mundo, terá início em novembro de 2013, no Brasil.

A segunda fase do projeto, com foco no ensino da História Geral da África, foi lançada em 2009. Ela tem como público-alvo estudantes do ensino público, mas também apresenta materiais para os professores, incluindo manuais escolares.

Um glossário também está sendo elaborado, a fim de corrigir alguns preconceitos transmitidos pelo vocabulário. Um dos objetivos do glossário, por exemplo, é reconhecer os nomes que os povos utilizam para se identificar, ao invés de termos escolhidos por outros. Assim, “twa” deve substituir “pigmeu", que é considerado um insulto pelas pessoas que designa. O glossário também questiona conceitos como “reino” e “império”, não aplicáveis estritamente à história da África.

“Ao mesmo tempo, nosso objetivo é que o maior número possível de professores e alunos se apropriem dessa história”, diz Ali Moussa Iye. “Também queremos combater os clichês que reduzem a África a um continente reconhecido apenas por suas paisagens e animais selvagens, e considerado vítima da guerra, da fome e da pobreza”.

* No total, cerca de 150 instituições de ensino superior, em 34 países, participaram dessa avaliação.




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