Perguntas para Esther Corona Vargas sobre educação em sexualidade

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Esther Corona Vargas - psicóloga clínica mexicana, especialista em educação em sexualidade, saúde sexual e reprodutiva e questões de gênero.

Esther Corona Vargas é uma psicóloga clínica mexicana, que tem mais de 50 anos de experiência em educação em sexualidade, saúde sexual e reprodutiva, e questões de gênero.

Atualmente, Esther preside os Comitês de Educação e Relações Internacionais da Associação Mundial de Saúde Sexual (World Association for Sexual Health – WAS) e é consultora de agências das Nações Unidas como UNESCO, OPAS e UNFPA.

Em entrevista concedida no México, ela explica os desafios da educação em sexualidade na América Latina e no Caribe, e enfatiza a importância de uma abordagem de política pública permanente, que, entre outras coisas, seja laica e não se baseie somente na biologia.

Quais são as características da educação sexual na região?
Não acredito que a educação sexual na região possa ser descrita por uma única característica, já que é uma região muito diversa, com vários níveis de desenvolvimento social e setores educacionais diferenciados. Contudo, é possível afirmar que, em vários países da região, a educação sexual está mais avançada do que em vários países do mundo, já que toma como base os direitos humanos e adota uma visão de gênero e respeito à diversidade que vai muito além das abordagens biológicas limitadas que encontramos em outras regiões. Além de enraizar firmemente a educação sexual na educação secular, precisamos reforçar essa abordagem.
 
Na sua análise da educação sexual na região, que mudanças recentes considera marcantes?
A história da região é um nítido exemplo da expressão “dois passos para frente, um para trás”. Contudo, a declaração Educar para Prevenir (2008) certamente foi um marco importante, embora eu pense que não tenha sido utilizada tanto quanto deveria. Acredito que o marco internacional mais importante seja o consenso sobre o assunto alcançado pela produção de materiais básicos disponibilizados por organizações como a UNESCO, o Conselho da População, a Federação Internacional de Planejamento Familiar (IPPF), a Associação Mundial de Saúde Sexual (WAS) e outras que, estabelecem padrões mínimos e abordagens comuns que podem ser adotadas e adaptadas nos âmbitos nacional e local.

Quais são os principais desafios para que um programa de educação sexual seja bem incorporado em uma escola?
Hoje em dia, o principal desafio ainda é político, ou seja, como reagir às mudanças no governo e no funcionalismo público sem perder todo o progresso alcançado. Se analisarmos a nossa história, veremos que a educação sexual é incorporada com maior ou menor dificuldade, dependendo da aceitação de um determinado governo, da sua percepção e compreensão sobre a sexualidade. Apesar dos altos e baixos, a capacidade técnica e a boa receptividade dos professores têm sido fatores constantes. É por isso que a formação de professores em educação sexual é tão importante, tanto para professionais em serviço quanto em programas de formação continuada, em escolas ou universidades. Outro desafio consiste na necessidade de se incorporar a experiência e a visão da sociedade civil organizada, que costuma ter um longo histórico de trabalho na área da educação sexual e permaneceu estável ao longo das mudanças de governo.

Para que a educação sexual seja oferecida de forma eficiente, é necessário que exista um diálogo entre os setores da educação e da saúde. Quais são os principais desafios e as maiores oportunidades para reunir esses dois setores?
A situação ideal é o diálogo intersetorial, o que pode apresentar dificuldades em âmbito nacional, devido às diferentes competências e prioridades de cada setor. Contudo, às vezes, a colaboração entre as duas áreas pode funcionar melhor nos âmbitos provincial, estadual e, sobretudo, local. Muitos países têm projetos intersetoriais, como comissões ou programas nacionais para gênero, prevenção de HIV, direitos humanos, população, ou outros semelhantes, que oferecem oportunidades naturais para a cooperação e são relevantes para uma educação sexual abrangente.

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