06.04.2015 - UNESCO Office in Brasilia

Parceria com Museu do Índio produz gramáticas e documenta 13 línguas indígenas

Treze línguas indígenas faladas no Brasil e sob ameaça de extinção foram documentadas em áudio e vídeo por um projeto do Museu do Índio, da Fundação Nacional do Índio (Funai), em parceria com a UNESCO. Dez delas ganharam gramáticas descritivas básicas e um banco de dados que poderá resultar em dicionários. O projeto também deu início à produção de cinco gramáticas pedagógicas para uso em escolas indígenas do país.

As ações fazem parte do Programa de Documentação de Línguas e Culturas Indígenas (Progdoc), que envolveu 40 povos e uma população total de cerca de 35 mil indígenas. O programa começou a ser discutido em 2008 e será concluído neste ano. O legado é imenso: mais de 2 mil horas de áudios e vídeos de falantes nativos, mais de 70 mil fotos digitais e 32 livros, com ou sem tradução para o português, além das gramáticas.

O trabalho coordenado por linguistas contou com a colaboração de indígenas que receberam capacitação e auxílio financeiro para atuar nas suas próprias comunidades. Durante o projeto, eles esbarraram concretamente no problema que tentam evitar: o desaparecimento de idiomas nativos. Isso ocorreu em Mato Grosso, onde o único falante vivo de que se tinha notícia da língua Apiaká, uma das 13 documentadas, morreu durante a pesquisa - após já ter dado depoimento em vídeo.

Embora a língua oficial e predominante no Brasil seja o português, o país tem entre 150 e 170 idiomas nativos, a maioria na região amazônica. Algumas línguas contam com cerca de 20 mil falantes, caso do Guarani, do Tikuna, do Terena, do Macuxi e do Kaingang. Outras, porém, são faladas por cinco pessoas ou até menos, situação em que se enquadrava o Apiaká.

A professora de linguística e antropologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Bruna Franchetto diz que a média brasileira é de menos de 200 falantes por língua. Daí a necessidade de documentação dos idiomas, já que as projeções quanto à preservação desses idiomas não são otimistas. Afinal, nem mesmo as línguas nativas com maior número de falantes estão a salvo.

Bruna é coordenadora do Projeto de Documentação de Línguas Indígenas (Prodoclin) do Museu do Índio, braço do Progdoc responsável pela parte linguística do programa. Ela teme que, até o fim do século 21, nenhuma das línguas nativas brasileiras continue sendo usada diariamente e transmitida de geração em geração.

“Cada língua é um patrimônio. Quando uma língua desaparece, leva consigo riquíssimos conhecimentos que não poderão mais ser acessados”, diz a professora.

Um dos livros publicados é “Contos Desano”, que reúne histórias e ilustrações do povo Desano, habitante do noroeste da Amazônia, no Brasil e na Colômbia.

Num texto introdutório, em português, Bruna e a ex-gestora científica do Prodoclin Mara Santos fazem referência à estimativa do linguista Michael Krauss, feita em 1992, de que “90% das línguas do mundo estariam na beira da extinção no século XXI, se não fossem tomadas medidas preventivas”. Bruna e Mara citam também a estimativa do professor e especialista em línguas indígenas Aryon Rodrigues de que, antes da chegada dos europeus ao atual território brasileiro, 500 anos atrás, mais de 1.200 línguas nativas seriam faladas cotidianamente.

“Línguas vivas e reconhecidas na sua plenitude não são apenas repositórios de tradições e conhecimentos complexos e milenares, mas também os veículos de sua transmissão de uma geração para outra e a base de autoestima e afirmação de alteridade, individual e coletiva”, diz o texto.

De acordo com Bruna, as línguas indígenas foram orais até o século 20. Ainda que existissem registros pictográficos, nenhuma delas estava alicerçada em alfabetos, isto é, letras. Foi a partir da década de 1950 que as línguas nativas passaram a incorporar a escrita alfabética.

O diretor do Museu do Índio, José Carlos Levinho, destaca a qualidade do material produzido na parceria com a UNESCO. Segundo ele, a impressão dos textos em línguas indígenas exigiu intensa colaboração entre linguistas, designers e editores, a fim de garantir a reprodução fidedigna da grafia das palavras.

Levinho considera também fundamental o envolvimento de pesquisadores indígenas. Para ele, a participação deles contribuiu para a valorização da cultura nativa entre as novas gerações. É que as comunidades indígenas, como qualquer sociedade, convivem com conflitos geracionais. E isso, segundo o diretor, pode resultar em desinteresse das gerações mais novas pela língua e pela cultura de seus ancestrais.

“As gerações mais antigas perfuravam o lóbulo da orelha ou os lábios. As gerações mais novas já não fazem isso, porque sabem que aquelas pessoas eram estigmatizadas. Ao invés de negar a autoridade dos mais velhos, os bolsistas indígenas precisaram buscar nos velhos as informações para o projeto. O que sinalizou que a valorização da cultura é algo apreciado”, diz Levinho, que planeja estender a documentação de línguas indígenas a grupos de índios recentemente contatados.

O Prodoclin registrou os seguintes idiomas (com o respectivo tronco ou família linguísticos entre parênteses): Apiaká (Tupi-Guarani); Desano (Tukano); Ikpeng (Karib); Kanoé (isolado); Karaja (Macro-Jê); Kawaiwete (Tupi-Guarani); Kisêdjê (Macro-Jê); Maxakali (Macro-Jê); Ninam (Yanomami); Paresi-Haliti (Arawak); Rikbaktsa (Macro-Jê); Shawãdawa (Pano); e Yawanawa (Pano).

Para dez línguas, foram produzidas gramáticas descritivas básicas, além de léxicos (repertório de palavras de uma língua). As três línguas que ficaram sem gramáticas descritivas e léxicos foram a Apiaká, a Rikbaktsa e a Shawãdawa.

O Prodoclin prepara também cinco gramáticas pedagógicas das línguas Ikpeng, Karaja, Kawaiwete, Paresi-Haliti e Wapichana. A língua Wapichana, da família Arawak, falada pelos índios de mesmo nome que habitam Roraima, não constava no projeto e foi incluída posteriormente. A previsão é que as gramáticas pedagógicas fiquem prontas até dezembro.




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