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Entrevista com Hugo Soares, Artista Playing For Change

Hugo Soares

1. O que o motivou a juntar-se ao Playing For Change?

O acaso é que me levou a juntar-me ao Playing For Change. Eu estava a morar em Barcelona e fui de viagem ao Brasil, quando regressei, os meus amigos músicos disseram-me que estava lá um produtor americano. Fomos fazer a sua despedida, e foi aí que o Clarence Bekker me apresentou ao Mark Johnson. Fizemos uma gravação do Pemba Laka, e depois comecei a participar naqueles tours que eles faziam em Madrid, em Barcelona... e comecei a conhecer vários músicos e compositores de Africa do Sul, do Congo e de outros países.

2. Nasceu em Angola e imigrou para o Brasil com a sua família devido à guerra. Esta experiência e a sua educação influenciaram-no como artista? Tiveram algum papel na formação do seu estilo musical?

Na realidade, imigramos para a América do Sul. Estivemos em vários países (Paraguai, Chile, Brasil..) e depois fomos para Portugal. Inicialmente pensamos que íamos voltar para Angola, mas já se tinham passado seis anos e a guerra não acabava...

Lá em casa, nunca perdemos a conexão com Angola sempre se falava de Angola e sempre estivemos à espera de poder voltar. Quando por fim voltamos a situação não estava a funcionar por vários motivos, e decidimos então sair outra vez do país percorrendo o caminho inverso. Acabamos por ir morar para a Argentina onde ficamos sete anos. Quando fiz 19 anos, comecei a viajar sozinho, já sem a minha família. Joguei muito tempo futebol na Bolívia, na Argentina, em Venezuela, no Peru... e depois acabei em Espanha onde começou a minha carreira musical.

Sempre tive qualquer coisa com a música. Eu gostava de decorar as músicas e depois durante estas viagens fui conhecendo outros sons e sons tradicionais. Então quando comecei a compor foi impossível dar as costas a tantas influencias e acabei por fusionar um pouco de tudo (ritmos sul-americanos, brasileiros, semba...).

Descobri a minha identidade angolana com o tempo porque quando comecei a escrever, eu saia do futebol e a minha cultura amiga era o Brasil. As minhas primeiras composições tinham influências brasileiras que eram as influências que eu ouvia. Foi aí que eu comecei a ver que nas minhas composições tinha um ritmo completamente angolano que estava escondido por detrás (enquanto eu pensava que estava a tocar funk). Cada lugar deixou um rastro de influência, e de melodia em todo o seu sentido, e acaba por ser a inspiração. E só nos apercebemos disto quando já temos qualquer coisa feita, nunca projetei este tipo de coisas.

3. Na sua opinião, qual é a ligação entre a música e a paz? Como é que os artistas podem contribuir para a promoção do diálogo e da paz?

Acredito que na sua base, existe uma ligação directa entre a música e a paz. Quando o ser humano ouve a música está em paz. Partindo de aí, esta magia que transforma a atenção do ser humano, e que desvia as atenções menos boas (sentido de competição, ambição...) pois estas atenções são opacadas quando se toca música. O ser humano olha mais para si, e a música leva-o para um caminho onde pode ver as coisas de forma mais positiva e as coisas lindas que estão no mundo e que as vezes não sabe.

Cada lugar deixou um rastro de influência, e de melodia em todo o seu sentido, e acaba por ser a inspiração.
Hugo Soares

4. A UNESCO lançou o ResiliArt para reforçar a resiliência no sector cultural. Que mais poderia ser feito para capacitar os artistas durante estes tempos difíceis e para além deles?

Os artistas têm uma certa importância, são a cura das sociedades com as suas dificuldades, as suas tristezas, as suas injustiças. Acho que as pessoas responsáveis nomeadamente nos governos deveriam dar mais apoio aos artistas.

Os artistas precisam de apoio na parte logística, para que não caiam tao facilmente nas mãos das indústrias, que muitas vezes acabam por desviar a sua essência. Precisam também de mais possibilidades económicas, precisam de direitos culturais para que possam cuidar a sua música e precisam de ser orientados para que não tenham tantas preocupações a nível de meios de subsistência. Resumindo, que possam se dedicar a criar sem tantas preocupações.  Acredito que isto traria mais riqueza cultural, porque há muitos artistas excelentes, mas que estão abandonados.

5. Que conselhos daria aos jovens artistas Africanos que desejam seguir uma carreira na indústria da música?

Na minha opinião, o artista tem que cuidar de si, do seu ser humano. O artista é uma pessoa que está muito exposta, porque o seu talento já está exposto. Então tem que se cuidar muito mais do que o resto das pessoas porque precisa de força e resiliência para aguentar ser esse canalizador de emoções tão grande que é.

O artista também precisa de disciplina como nas outras áreas da vida e em qualquer outra profissão.  O conselho que dou, a nível mais espiritual é que é necessário ter respeito pelo lugar e pelo momento, ter respeito pelo palco e o pelo momento de inspiração porque essa é a fonte.

6. Como podemos assegurar que os laços culturais entre a África e as suas diásporas sejam mantidos?

Vou dar um exemplo que tive com a música angolana, com o Pemba Laka. A música encantou, de facto, a música angolana em geral encanta. Mas aonde? E aonde é que as pessoas podem ouvi-la? Aonde é que há uma gira internacional dos artistas angolanos que vão diretamente com a sua banda para todo o mundo? Acho que as pessoas iriam adorar isso, mas ainda não há muito esse movimento.

Acho que o finca-pé deveria ser feito nos movimentos culturais e conseguir fazer com essas músicas sejam mais promovidas, mas também que sejam traduzidas. Muitas músicas são cantadas nas línguas nacionais, e precisam de tradução para que todos possam compreender as mensagens que estão por detrás. No estrangeiro já gostam de ouvir a nossa música, agora imaginem se percebessem.